Meditação aplicada a Medicina

Pesquisadora fala sobre as vantagens da meditação aplicada na medicina e as últimas novidades em pesquisas na área

Elisa Harumi Kozasa

Qual a diferença no cérebro de uma pessoa que medita e uma que não?

Em nossos estudos do Instituto do Cérebro, publicados em importantes revistas internacionais, como a NeuroImage, observamos que pessoas que realizam um teste de atenção sustentada, durante um exame de ressonância magnética funcional, e que não meditam com regularidade, precisam ativar mais áreas cerebrais que pessoas que meditam regularmente para obter a mesma performance. Isto pode significar que essas pessoas teriam um cérebro mais eficiente nesse tipo de teste de atenção.

Em outro estudo, publicado na Plos One, foi possível classificar, com uma precisão de quase 95%, se um cérebro, pela sua estrutura, pertencia a uma pessoa que meditava com regularidade ou não. Em um editorial em que colaboramos da Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, apresentamos uma panorâmica de práticas como o ioga e a meditação e suas contribuições na área da reabilitação.

Que benefícios a meditação pode trazer na medicina?

Em outro estudo em que colaboramos, finalista do Prêmio Saúde de 2013, foi possível verificar que cuidadores de pacientes com Alzheimer que passaram por um programa que envolvia ioga e meditação conseguiram não apenas diminuir a percepção de seu próprio estresse, como também reduzir os níveis de cortisol (principal hormônio relacionado ao estresse) pela metade, quando comparado a um grupo controle.

Hoje, na área de saúde, há um grande interesse em programas que possam ajudar a mudar o estilo de vida para um modo mais saudável, com redução de sintomas de estresse e melhora do bem-estar. Neste sentido programas que incluam práticas meditativas podem ter um papel bastante importante, não apenas no tratamento de doenças, como também na promoção de saúde. Tais práticas ajudam o indivíduo a desenvolver um foco de atenção para sua vida diária, o ajudando a perceber respostas automáticas que nem sempre se refletem nos melhores hábitos ou comportamentos.

A meditação pode ser usada como tratamento?

Existem, na literatura científica, diferentes trabalhos relacionando a meditação sobre uma melhor atenção, regulação emocional e melhora de problemas cardiovasculares. Por outro lado, sempre recomendamos o acompanhamento de um profissional de saúde quando se trata de doenças físicas ou mentais. A prática de meditação não é uma panaceia e geralmente é um método coadjuvante quando se pensa em tratamento.

Quais as descobertas mais recentes do campo de meditação?

Alguns estudos têm procurado mostrar a existência de diferenças entre praticar meditação e descansar, como, por exemplo, na expressão de genes relacionados ao processo inflamatório. Outros estudos começam a explorar o potencial de práticas meditativas no envelhecimento cerebral, mas são apenas estudos preliminares.

Acredita que no futuro a meditação vai ser mais difundida entre as pessoas, chegando a ser recomendada para mais pacientes?

Isso já acontece em diversos países, e no Brasil há práticas meditativas oferecidas até mesmo em Unidades Básicas de Saúde. Em nosso hospital, o setor de Medicina Integrativa do Centro de Oncologia e Hematologia oferece práticas contemplativas para os pacientes interessados.

Que dicas você pode dar sobre o assunto para uma pessoa que ainda não medita?

Nem todas as pessoas gostariam de meditar ou conseguem adaptar a prática em sua rotina, de preferencia diária. Mas para aquelas que gostariam de aprender e experimentar, recomendo buscar, ao menos no início, um bom professor.

Fonte: https://www.einstein.br/noticias/entrevistas/elisa-harumi-kozasa – Publicado em: 21/02/2014

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